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Liderança ética 20 – Percepção e comunicação

Postado em 22 de abril de 2013 | Por : | Categorias : Artigos | 3 Comentários

Percepção e comunicação

Qualquer que seja o contato entre duas pessoas, aí já existe uma comunicação. Seja na forma como nos vestimos, a aparência física que adotamos, a postura corporal, mesmo as características que já trazemos de nascença, os elementos não verbais são suficientes para iniciar uma troca de informações. Na verdade, o funcionamento psicológico humano está constantemente buscando por sinais e, até mais do que isso, muitas vezes vê sinais onde talvez eles não existam. Ainda que involuntariamente, o normal no ser humano é comunicar, trocar informações.

Alguns testes psicológicos se beneficiam disso. A maioria das pessoas adultas já deve ter visto aquelas imagens de manchas simétricas utilizadas para que a pessoa avaliada diga o que está “vendo”. De acordo com as respostas chega-se a um determinado diagnóstico. Ou seja, a nossa maneira de transformar os estímulos da realidade em algo familiar pode ser um processo mais ou menos doentio. Mesmo na natureza, várias formações rochosas recebem um nome de objeto por guardarem uma forma semelhante. O ser humano tende a reduzir a realidade e a buscar traços familiares nela para fazer-se mais seguro e para organizar os limites de sua interação.

O lado positivo dessa condição é que estamos sempre interagindo com o meio ambiente e com as pessoas, mas a contrapartida negativa é que somos fáceis de ser enganados e estamos sempre impondo nossas expectativas e nossas experiências sobre as pessoas e sobre a realidade, o que faz com que nunca sejamos capazes de conhecer a realidade e as pessoas tal qual elas são. Assim como é impossível não ter preconceito, é impossível não ter expectativa. Precisamos generalizar para termos um ponto de partida no processo de avaliação das coisas que nos cercam. A partir dos traços identificados vamos, instantaneamente, analisando e enquadrando em categorias até que chegamos a um conceito, uma definição ou reduzimos a uma categoria. Isso costuma ocorrer em frações de segundos.

Sabemos que nunca vemos a realidade mesmo que não tenhamos algo ou alguém para nos dizer como ela é. Além da psicologia, a filosofia e as religiões já trataram desse fenômeno muitas vezes. Para nós, humanos, o real é sempre intermediado por nossos limites de interação. Nossos órgãos dos sentidos registram apenas dentro de um limite de luzes, sons e demais energias, ao passo que ao nosso redor inúmeros acontecimentos são imperceptíveis. Uma grande quantidade de fenômenos da realidade está ocorrendo agora e somos completamente incapazes de ter consciência deles. Alguns animais registram, por exemplo, a radiação infravermelha; aves sentem a energia eletromagnética, ao mesmo tempo em que cães e morcegos ouvem estímulos mais agudos e elefantes ouvem outros mais graves. Provavelmente, a realidade é um caos e precisamos da agilidade do cérebro para dar-lhe a organização possível. Talvez, a esquizofrenia seja uma falha nesse distanciamento do real.

E é curioso notar que o processo que cuida dessa tarefa é a percepção. O termo, originalmente, quer dizer “captar tudo” (per – tudo; intensamente; ­capere­ – captar), indicando a presunção humana de imaginar uma superioridade tal que lhe garantia conhecer todas as coisas exatamente como elas são. Contudo, a percepção é o filtro do mundo, é o recurso neurológico encontrado para enxergamos o que é tolerável, importante, funcional ou o que é compreensível para nós. Consequentemente, adaptamos o que percebemos às nossas experiências e aos nossos limites subjetivos, deixando de perceber as coisas em seus aspectos particulares e objetivos.

No caso da evolução humana, não enxergar os raios infravermelhos nos propiciou uma nitidez maior para interagirmos com as feições do rosto. Se enxergássemos como as cobras, nem a identidade fisionômica nem os traços de expressão das emoções seriam suficientemente claros para formarmos os complexos vínculos sociais e afetivos que, desde o nascimento (e talvez ainda antes), são indispensáveis para a socialização e para o desenvolvimento da noção de si mesmo.

A regularidade de nossas fronteiras perceptivas não se restringe à natureza dos limites externos, mas também se aplica à maneira como organizamos o que está dentro dessas fronteiras. Abaixo está uma figura que tendemos a ver do mesmo jeito. São oito pequenos círculos alinhados horizontalmente:

Basta uma pequena alteração espacial na disposição desses círculos para que todos deixemos de ver uma sequência de oito e passemos a ver uma sequência de quatro arranjos de dois círculos:

Uma nova alteração e podemos recolocar os oito círculos novamente alinhados e sem variação no espaço entre eles, mas alteramos a cor de seu preenchimento. Mais uma vez, deixamos de ver uma sequência de oito círculos para ver, agora, uma alternância de dois círculos de cores diferentes:

Mesmo quando não se trata de formas geométricas básicas, podemos dispor oito colchetes com o mesmo espaço entre eles. Em vez de uma sequência de oito, veremos quatro grupos de dois colchetes:

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Voltando às figuras geométricas elementares, somos inclusive capazes de ver algo que não existe. Todas as pessoas que foram perguntadas se viam um triângulo branco na figura abaixo responderam que sim. Porém, não existe esse triângulo, mas três círculos equidistantes com uma pequena parte apagada:

Isso sugere que existe uma predisposição perceptiva universal no ser humano, tendemos a organizar a realidade com alguns princípios comuns e involuntários. Novamente, há vantagens e desvantagens. Se essas experiências nos permitem constatar que há uma regularidade perceptiva nas pessoas, temos a segurança de que não precisamos descrever nem explicar tudo para estabelecermos um diálogo compreensível. Entretanto, ocorre de insistirmos nesse pressuposto e acreditamos que todos tendem a perceber e pensar como nós. Isso pode se desdobrar em uma excessiva condensação das informações necessárias para uma boa compreensão, quando não chega ao ponto de pensarmos que o outro tem ideias, valores e conceitos iguais aos nossos.

Aqui se substancia o problema ético deste texto: qual o caminho para se constituir um processo ético de comunicação, de modo que o outro seja contemplado coma as informações necessárias (nem muito mais nem muito menos) e, ao mesmo tempo, tenha suas singularidades e diferenças consideradas e respeitadas? Por mais que todos tenhamos algumas tendências para perceber igualmente, estamos todos em lugares diferentes, temos histórias, valores e princípios diferentes, o que implica pontos de vista diferentes.

A liderança ética pode se beneficiar, então de alguns cuidados no processo de comunicação, seja por escrito, pela fala ou, por símbolos (como é o caso de palestras, campanhas de publicidade, motivação, etc.):

Objetividade – as informações devem estar organizadas de modo a construir o argumento que interessa às partes envolvidas e privilegiar o que importa ser compreendido;

Clareza – o vocabulário, os exemplos, a contextualização e a ordem da argumentação devem ser apropriados aos interlocutores e sem ambiguidade;

Consistência – a densidade dos elementos que constituem a comunicação deve manter o interlocutor atento sem cansá-lo. A pessoa que comunica deve demonstrar conhecimento sobre o que apresenta;

Profundidade – o interlocutor deve ser capaz de notar que as informações trazidas são valiosas e que são apresentadas novidades que contribuem com o alcance do objetivo. A profundidade contribui para que o interlocutor possa “mergulhar” na comunicação;

Pertinência – o contexto não implica somente a ideia e o problema. Além de o conteúdo, o vocabulário e o tema serem apropriados, o outro precisa sentir-se envolvido nos propósitos, o momento deve ser adequado, deve haver tempo, privacidade e conforto suficientes;

Reciprocidade – o canal de comunicação deve estar aberto e acessível para os retornos de compreensão, verificação de detalhes, discordâncias, insatisfações, elogios, propostas, revisões e demais interesses do interlocutor;

Elegância – é a capacidade de escolher bem, o que inclui harmonia, leveza, precisão, respeito, correção vocabular e gramatical sem pedantismo (combinada com a informalidade contextual), qualidade estética, atenção às reações do interlocutor, correção moral. Na matemática, a elegância é a capacidade de desenvolver um raciocínio com simplicidade, rapidez e precisão. Em geral, é o exercício suave e constante da ética.

Acredito que a combinação adequada desses elementos permite desenvolver interações de ideias e comportamentos ao ponto em que todos os participantes sejam coautores e sintam-se responsáveis e beneficiários, de modo que se constitua uma polifonia.

 

Bernardo Monteiro de Castro

 

(Veja mais sobre liderança clicando em: post1, post2, post 3, post4, post5, post 6, post 7, post 8, post 9, post 10, post 11, post 12, post13, post14, post15, post16, post17, post18, post19, curso1, curso2, palestra1 e palestra2, agenda.)

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Comentário

  • Eduardo

    24 de abril de 2013 às 21:15

    …..

  • Edison N Webster

    27 de abril de 2013 às 23:51

    Prezado Bernardo / Crescente
    Como sempre, magnifico artigo! Obrigado por compartilhar conhecimento para nosso crescimento, fraterno abraço.
    Edison – Novo Hamburgo/RS

    • crescentedh

      28 de abril de 2013 às 16:51

      Meu caro Edison,
      Obrigado pela participação.
      Grande abraço,
      Bernardo

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