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Liderança ética 28 – Ética e responsabilidade social no coração da empresa: a microética

Postado em 17 de janeiro de 2017 | Por : | Categorias : Artigos | Comentários desativados

Liderança ética e responsabilidade social no coração da empresa: a microética.

A ética é um assunto interminável em qualquer contexto que vise à melhoria das condições humanas. Em um mundo que permite a oito pessoas o acúmulo de mais de 50% de suas riquezas, com tendência de maior concentração ainda, não se pode esperar que a ética venha a sair do rol de assuntos recorrentes.

As mudanças políticas recentes no planeta apontam para um extremismo nacionalista que se apoia em discursos moralistas, ou seja, a moral aparente tem sido um discurso fortalecido, por meio do qual a ética é apenas retórica. O crescimento político dos partidos nacionalistas e xenófobos na França e Alemanha, o Brexit na Grã-Bretanha, a vitória de Trump nos EUA e movimentos afins na Europa e América Latina apontam para uma insatisfação preocupante frente ao empobrecimento e à perda de oportunidades no mercado de trabalho, o que parece cair na conta dos Estados neoliberais. Ao longo desses anos recentes caracterizados por diminuição do crescimento, desemprego e recessão, cresce o individualismo e a demonização do outro e suas diferenças. A diversidade é ameaça.

Em nosso caso, o moralismo que desvirtua a ética por meio de sua transformação em mero instrumento retórico é nítido no Brasil há muito tempo, mas parece mais óbvio nos últimos anos. E isso tem fortalecido os discursos de intolerância política, social e religiosa, todos moralistas e sem consistência ética.

Segundo pesquisas do Datafolha de março de 2015, logo após a eleição direta de 2014, a maioria dos participantes (82%) em um protesto da Av. Paulista “contra a corrupção” havia votado em Aécio para presidente. Ora, quem vota em Aécio pode, sim, querer o fim de um modelo político em que há pessoas corruptas presentes, mas é improvável que seja um eleitor radicalmente contra a corrupção (vistas as recorrentes citações nas delações premiadas e acusações reveladas na campanha presidencial). Além disso, a omissão dos mesmos protestantes ao quadro político atual, repleto de escândalos e com a confirmação de tráfico de influência, denota interesses moralistas e não-éticos.

Essa configuração exibe sua lógica no meio judiciário. Não bastassem pronunciamentos públicos fora dos autos, viagens e reuniões entre quem julga e quem é réu, a celebridade heroica de juízes com o apoio sensacionalista dos meios de comunicação, a presidente do STF já veio a público dizer que não aceitaria ofensas a qualquer membro do judiciário: clara demonstração de espírito de corpo. Deselegante frente à obviedade de que, inclusive no judiciário, há pessoas desonestas e de má fé. Aquela senhora agiu, assim, também de modo moralista e despreocupado com a ética.

O brasil assiste a chacinas sem fim, logo após a revisão das penas da carnificina de Carandiru. Sem qualquer indignação proativa dos poderes, sequer do judiciário. Não existe ética frente aos arrebatamentos moralistas quando se trata de “bandidos”. Como se não houvesse bandidos tão ou mais frios e inescrupulosos entre os políticos, juízes e os grandes ricos da sociedade. Mas isso não vem ao caso.

Nos ambientes corporativos, muito mais gravemente isso ocorre. Se não por causa de ali estarem os verdadeiros recursos financeiros que azeitam a máquina da corrupção, seguramente pelo fato de que, ali também, ensina-se aos cidadãos, na prática, o uso perverso do tema da ética para construir a cortina de fumaça da moralidade. Os códigos de ética, normas de conduta e documentos semelhantes servem apenas para a punição da arraia miúda, ao passo que os tubarões protagonizam os grandes escândalos. Fazem, nas sombras, o que dizem ser proibido aos seus empregados. Agora chamados de colaboradores. Ao constatar essa inegável incongruência, os trabalhadores fazem chacota com o discurso de ética das instituições.

Então, onde sustentar um discurso e uma prática da ética? Como dar vigor e perspectivas positivas ao que se chama de responsabilidade social, já que esta não se aplica à moral e fundamenta-se na ética pura?

Primeiro, tenho como ponto zero de qualquer política e proposta ética e de responsabilidade social que o que se prega deve ser praticado. Se uma instituição prega o compromisso com a responsabilidade social, então ela tem obrigação de ter princípios e práticas internas iguais aos que pretende aplicar no relacionamento com as comunidades externas, ou seja, é obrigatório que haja uma política de responsabilidade social interna. O mesmo se aplica à ética.

E convenhamos que dentro das instituições de trabalho a intolerância, a discriminação e a falta de oportunidades equânimes são muito fortes. Piadinhas ofensivas a minorias de gênero, poucos negros, mulheres e indígenas em cargos hierarquicamente mais altos, carência de programas para qualificação dos menos instruídos, enorme diferença entre o maior e o menor salário, falta de investimento de treinamentos para políticas de inclusão e, neste caso, a confusão entre inclusão (algo muito amplo) e contratação de indivíduos com deficiência são pouquíssimos exemplos, embora suficientes.

Não adianta fazer estudos sobre ética das corporações, todo mundo já sabe que existe um ponto de não-transparência na maioria dos grandes negócios e que são poucas as corporações que põem em prática os fundamentos que pregam. Para evitar as cada vez mais constrangedoras manifestações dos trabalhadores durante palestras e cursos sobre ética, a tendência das empresas é “investir” em treinamentos on-line, que apenas orientam por meio da moralidade e retoricamente cumprem a obrigação burocrática de orientar sobre as normas de conduta e suas éticas.

É nesta situação sociocultural que se deve apontar para outra percepção da ética, algo que se chama “microética”.

Trata-se da ética dos pequenos gestos, das situações informais, da ausência da moral. Não é preciso ter religião nem ser da mesma religião, não é preciso ser do mesmo gênero, nem da mesma hierarquia ou classe social.

Certa vez, em um treinamento para uma empresa de milhares de trabalhadores, um participante, cujo nível hierárquico era identificado como “chão-de-fábrica”, mencionou a sua satisfação por estar no mesmo grupo de gerentes, de passar por eles e ser cumprimentado, apertarem a mão um do outro e se chamarem pelo nome, olhando-se nos olhos. Algo que parece banal tornou-se digno de destaque.

Isso está acima e antes das normas de conduta e não depende da imagem ou reputação de um grupo, de uma empresa, de uma corporação. O que quer que se pregue com o auxílio da moralidade perde sua importância, pois a microética é a ética do cotidiano e das ações despretensiosas, são cuidados que não esperam por ganhos em reciprocidade e não ocorrem para doutrinar, mas, sim, para compartilhar ou para doar sem avaliar nem julgar quem recebe ou quanto se lucra em troca.

E, o que me parece mais interessante e valioso nesse caso, é que é exatamente a microética que sustenta a ética geral, ou seja, é a partir dos aprendizados espontâneos e dotados de sentido existencial, sem interesse em retribuição, que se fundamentam as atitudes altruístas, empáticas e compassivas. Competências que se aplicam em todas as circunstâncias espontaneamente, não precisam de códigos de ética nem normas de conduta e reforçam a solidez e a saúde de uma cultura ética institucional.

Em geral, as teorias dividem a ética em ética teleológica e ética deontológica. A primeira visa avaliar o bem de acordo com os resultados, isto é, de acordo com as condições posteriores aos atos. Já a ética deontológica postula o bem em si mesmo, antes dos resultados possíveis. É a deontologia que fundamenta os códigos de ética das profissões e das instituições, tal como os manuais de normas e condutas. A determinação normativa prévia do comportamento já seria condição suficiente para a ocorrência do bem e a prevenção do mal. De toda forma, são condições associadas à moral.

Podemos assumirmos que os valores e comportamentos éticos mudam constantemente. As gerações transformam e renovam seus acordos éticos para alterar o padrão moral de uma sociedade. Por isso, pressupor um bem de acordo com as consequências (teleologia) ou de acordo com o momento (deontologia) é desconsiderar tanto a diversidade das reorganizações éticas existentes, e não captadas em um momento, quanto as transformações socioculturais inevitáveis em qualquer população.

O que a ideia de uma microética traz é um aprofundamento nas ações cotidianas de acordo com o bem-estar próprio das condições humanas, por um lado, e um distanciamento moral para que a ética seja menos suscetível a um uso superficialmente retórico. É possível tratar da empatia, por exemplo, por um discurso moralista: “ponha-se no lugar do outro”, como se tivéssemos que sofrer ou até viver coisas que não se aplicam a nós.

Mas a experiência empática pode ser suficiente se aprendemos que os sentimentos e valores do outro são legítimos. Ainda que não me faça sentido sofrer pela derrota de um time de futebol, ou regozijar por uma determinada crença religiosa, posso reconhecer, tal como se aplicaria a mim, que não cabe julgar isso em outra pessoa e que ela deve ser respeitada por seus sentimentos e valores, solidarizando-me, cuidando, oferecendo apoio, calando-me ou, talvez, engajando-me em sua causa. Mas eu não tenho que sofrer quando o outro sofre, não preciso me colocar no lugar do outro para ser empático.

A miséria do meu semelhante pode me doer, revoltar, entristecer e despertar meu clamor por justiça. Mesmo que eu nunca tenha vivido na miséria, que eu não saiba o que é isso, mesmo que eu não tenha como pôr-me no lugar do outro e mesmo que o outro não tenha a menor consciência de o que é justiça, não se revolte, não se entristeça mais. Nem sequer lhe reste consciência da própria dor.

Se eu souber o que fere o outro, ou não, isso não me impede de ser respeitoso, cuidadoso, empático, ético. Posso evitar expor a outra pessoa a situações de riso: em vez de rir do outro eu posso sorrir com o outro. Seja no modo de me referir ao nome, a possíveis apelidos, a características anatômicas ou culturais. Assim sou ético.

E sei que com outra pessoa do mesmo grupo as situações de bem-estar e mal-estar podem ser diferentes e essa diferença pode fazer com que eu, o outro e o grupo nos sintamos melhor ou pior. Dessa forma, não existe um código de ética prévio que se aplique uniformemente aos membros do grupo (onde ocorre a microética) nem uma expectativa suficientemente segura para garantir bons resultados de meus atos. Contudo, é possível construir e reconstruir as referências éticas de todas as relações quando temos como referência a microética e nos pautamos na clareza de que a ética é mutável no momento e nas pluralidades das pessoas vinculadas, para uma regulação melhor dessas relações.

Consequentemente, valoriza-se também o cuidado com a diversidade, inerente a toas as pessoas e a cada uma delas. É por meio da microética que se vão construir com solidez e durabilidade os alicerces de uma cultura verdadeiramente ética porque sabe-se espontaneamente das transformações, das diversidades e das circunstâncias.

Cursos de ética para o exercício da liderança e para o treinamento de indivíduos, sejam alunos de ensino fundamental ou médio, sejam grandes executivos ou agentes comunitários, para não dizer de políticos e magistrados, deveriam se fundamentar menos nas questões teóricas, racionais e doutrinárias, geralmente tendenciosas para a lógica da moralidade e sem apelo para um posicionamento prático e comprometido. A liderança ética deve ser sensível à microética e este ensinamento requer uma competência empática específica e um reconhecimento das singularidades e das diversidades como essências da constituição socioafetiva dos indivíduos.

 

Texto e foto de Bernardo Monteiro de Castro.

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