Blog

Acompanhe as notícias.

Liderança ética 19 – Limites, preconceito e estigma

Postado em 15 de abril de 2013 | Por : | Categorias : Artigos | 0 Comentário

Limites, preconceito e estigma

Desde as orientações nas escolas infantis até os treinamentos de gestores, passando por discussões sobre política internacional ou diversos tipos de programas de televisão, o tema do limite é diverso e constante no cotidiano. Seja na dimensão do espaço-tempo, seja nas relações socioafetivas, seja no equilíbrio das próprias ações, o funcionamento dos limites regula a visão de mundo que uma pessoa, seu grupo ou a sociedade em geral constroem. O senso comum até chega a clamar: “Tudo tem limite!”.

Talvez nem tudo nem todos.

A instrução geral é recorrente e parece inquestionável: “é preciso impor limites”. Sobre crianças, adolescentes, adultos, cônjuges, trabalhadores, ou seja lá quem for. Essa é a norma. Mas é possível que a imposição de limites não seja a melhor atitude.

Se tomarmos como exemplo a referência física dos limites, vamos pensar sobre a demarcação de fronteiras. A partir disso, é possível observar como é muito mais comum a existência de conflitos em limites impostos do que em limites construídos. Mais do que isso, note-se como os limites impostos geram uma contrapartida de tentativas de invasão. É comum a imposição de limites alimentar rancores, revoltas e violência.

Povos tais como palestinos e israelenses, argentinos e chilenos, chineses e japoneses, russos e chechenos, indígenas e latifundiários brasileiros, estadunidenses e mexicanos, canadenses francófonos e anglófonos, geralmente estão além de situações de conflito, vivem atos de confronto, por vezes estão em guerra. Em todos os casos se registra um histórico de imposição de limites e o desejo de se ocupar ou resgatar um território ou a autonomia política sobre ele.

Essa disputa por algo físico é análoga a querelas sociais e afetivas. Classes sociais vivem mais ou menos tensões em decorrência da imposição de limites, filhos se rebelam contra as imposições dos pais, ou precisam ser castigados, cônjuges disputam por status, visibilidade e poder.

Diferentemente, as reações costumam ser positivas e dão bons frutos quando se trata da construção de limites em vez da imposição, fundamentalmente porque o limite é algo que se compartilha, existe sempre a partir da interação. Isso implica duas coisas: construir limites é mais importante do que impô-los; os limites estão constantemente sendo reorganizados.

A construção de limites implica considerar a outra parte como sujeito ativo e capaz para a organização das relações, certamente de acordo com suas competências. Seja o bebê que chora, seja o patrão que não reajusta o salário, todos têm algo a demandar que deve ser compreendido e ponderado antes que se imponha um limite. O difícil é encontrar a medida e o modo para se construir uma solução, principalmente porque isso requer compromisso, interesse em conhecer o ponto de vista do outro e tempo para se alcançar uma solução boa para ambas as partes. Impor algo é instantâneo, egoísta e descomprometido.

Isso não quer dizer que meus limites não devam ser considerados nem respeitados, ou que se deva sempre ceder. Ocorre que muitas vezes os limites apesentados tanto podem ser estendidos por caprichos e veleidades quanto poderiam ser reorganizados. Quando se trata de princípios e valores (veja aqui um texto sobre isso), pode haver uma flexibilidade maior ou menor de acordo com o enfrentamento de princípios (menos flexíveis) ou de valores (mais flexíveis). Nos dois casos há limites. Similarmente, isso se aplica a questões éticas e morais, geralmente os limites morais são mais inflexíveis.

Mas aí entram em cena o valor e a ética. É por aí que haverá a flexibilização. Quantas coisas toleramos porque o outro tem valor para nós, com quantas diferenças e pontos de vista discrepantes somos capazes de lidar por que temos uma ética de inclusão e bom convívio?

Por outro lado, estigmas e preconceitos interferem negativamente quando se buscam boas soluções. É impossível uma pessoa não ter preconceitos (já falamos um pouco disso aqui) ou ser insensível a estigmas. São duas coisas que se inter-relacionam ,mas que são distintas.

Preconceitos são ideias preconcebidas, individuais ou coletivas, que atribuem uma condição negativa quando um ou mais elementos se manifestam, geralmente são aprendidos ou deduzidos, quer dizer, são um fenômeno cognitivo. São uma predisposição contrária a uma ou mais pessoas, ou a circunstâncias ligadas a ela(s), ou seja, em algum nível se trata de algo pessoal e, consequentemente, afetivo. Seu funcionamento leva à generalização, minimizando a individualidade, isto é, existe uma referência que se destaca em uma determinada interação e que minimiza as demais variáveis presentes.

Essa referência é o estigma. Esse termo, que em princípio significa um sinal ou marca física, popularizou-se no Ocidente devido ao fenômeno do surgimento de feridas sempre abertas nas mãos de Francisco de Assis,  semelhantes às perfurações que teriam sido impostas a Jesus em sua crucificação.

Mas um estigma tende a ser considerado um sinal negativo, que pode ser físico (anomalia, cor da pele, traços étnicos) ou cultural (homossexualismo, prostituição, origem geográfica), visível ou não. Se o preconceito está em quem discrimina, o estigma está em quem é discriminado, isto é, no indivíduo sobre o qual opera o preconceito. Se, por um lado, os preconceitos são parte de meus limites, meus estigmas são limites que o outro me impõe.

Voltamos, assim, à questão da imposição de limites. Podemos compreender que impor um limite é, de algum modo, determinar um estigma no outro. Quando eu determino que um sinal do outro é negativo, geralmente por meio de um preconceito meu, eu transformo o meu preconceito em uma verdade à qual o outro deve se submeter. Portanto, impor um limite é submeter o outro, é construir uma relação de submissão. É claro que toda pessoa está submetida à cultura e suas normas, mas isso é diferente de uma submissão a uma outra pessoa.

E essa imposição de limites tem também uma característica moralista e tradicional. Se os limites devessem ser impostos, até hoje teríamos as mesmas referências socioafetivas do início da cultura da humanidade. Cada geração deveria impor seus limites à geração seguinte, a qual deveria, primeiro, assimilá-los como referência própria e correta e, segundo, submeter a geração subsequente a esses mesmos limites, em uma cadeia sucessiva e imutável. Seríamos uma sociedade uniforme em termos de moral e onde a ética não surgiria. Criaríamos gerações alienadas e pessoas desprovidas de subjetividade. Estaríamos em um mundo impossível, ou não-humano.

Neste ponto do raciocínio, alguns mais preocupados com a ordem e com a justiça, tanto quanto outros mais afoitos por suas inquietações sádicas mal adormecidas devem questionar sobre uma decorrência importante da relativização dos limites: quais seriam as referências para a punição, pois a firmeza dos limites deve servir como referência para a justiça das punições, que, por sua vez, dão suporte ao controle da orem social e proteção à integridade dos indivíduos e de seus bens.

Para não me alongar muito, vou usar a referência da punição em educação de crianças e adolescentes.

Sabe-se que pais e mães que conversam com seus filhos desde o nascimento (e até antes), com o cuidado de informar sobre as atividades que vão compartilhar e as mudanças que vão ocorrer, sobre presenças e ausências, com isso eles geram pessoas mais participativas, responsáveis e com melhores vínculos, ou seja, com menos necessidades de punição. Basicamente porque constroem limites em vez de impô-los.

Quando a punição é necessária, e isso sempre acontece com todos nós, as referências essenciais são: Qual é o objetivo de uma boa educação: punir ou ensinar? A punição é “do mesmo tamanho” do que a criança fez de errado? Mais do que as respostas, é a ponderação a essas perguntas que vai verdadeiramente qualificar a relação, já que educar é fácil, mas educar bem é muito difícil, porque as coisas importantes para a gente exigem muito cuidado e dedicação. Isso implica saber diferenciar entre medo e respeito.

Então, para construir limites para as relações, talvez o binômio seja conviver e regular (organizar as regras). Cada tipo de relação tem um tipo de limite e, na construção do limite, é importante que as partes sejam informadas dos sentimentos envolvidos, mas, cuidado, sem a tentação da chantagem emocional. Na medida em que as relações mudam e amadurecem, os limites devem ser revistos.

Com isso se constrói a responsabilidade. Zygmunt Bauman, em seu livro A arte da vida (Ed. Zahar), comenta sobre as vicissitudes da contemporaneidade “líquida” e fala da importância de se conciliar responsabilidade e escolha. Já falamos (clique) aqui sobre escolha . Quanto à responsabilidade, o termo vem de re + sponsabilis, onde re = de volta; novamente e spondere = assumir um compromisso ou uma obrigação solene; obrigar-se a, assegurar. Responsabilidade = assumir um compromisso ou obrigação de retornar ou retribuir.

O limite pode ser um compromisso ou uma obrigação, pode ser imposto ou construído. No caso de uma liderança ética, os cuidados com os estigmas e preconceitos, com as singularidades dos afetos envolvidos, com a cultura e com a diversidade presente serão essenciais para essa solução.

 

Bernardo Monteiro de Castro

 

(Veja mais sobre liderança clicando em: post1, post2, post 3, post4, post5, post 6, post 7, post 8, post 9, post 10, post 11, post 12, post13, post14, post15, post16, post17, post18, curso1, curso2, palestra1 e palestra2, agenda.)

Sobre crescentedh

Deixe um comentário