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Liderança ética 23 – Barbárie

Postado em 21 de maio de 2013 | Por : | Categorias : Artigos | 0 Comentário

Barbárie

Rapidamente, o texto sobre vínculos duplos mencionou o tema da barbárie (clique aqui) em uma citação de Edgar Morin. Trata-se de um fenômeno muitas vezes atribuído de modo moralista às atitudes do inimigo, principalmente quando ele se antecipa aos nossos desejos sádicos de destruição e sofrimento em relação aos outros. A barbárie é a reação humana quando não se respeita a cultura, a Lei. E essa cultura nos causa os comportamentos éticos e os valores morais, ou seja, as normas de convivência civilizada, o controle dos instintos, o funcionamento das instituições e o respeito pelo outro.

O ser humano não é um produto da evolução biológica, simplesmente. Há estudos bem detalhados e com diversidade suficiente para sabermos que se um ser humano passar seus primeiros anos de vida sob a criação de animais (o que se chama vulgarmente de criança-fera) ele não se humanizará, isto é, não será capaz de viver de acordo com as normas sociais nem de adquirir o domínio da linguagem. Isso quer dizer que o que humaniza o ser humano é a cultura, organizada por códigos simbólicos como a linguagem. Não é a natureza com seus códigos físicos e bioquímicos.

E essa humanização aparentemente não tem volta, até onde se sabe não é possível retornar a um estado natural após a entrada na dimensão cultural. Pode ocorrer algum transtorno psíquico, tal é o caso da esquizofrenia, ou a rebeldia frente à cultura, a barbárie.

Freud construiu uma teoria engenhosa e de grande reconhecimento a respeito dos pilares que sustentam a cultura da humanidade. Muito sinteticamente, posso retomar alguns pontos que cabem neste texto e recomendar ao leitor a brilhante obra Totem e tabu (clique aqui para acessar o arquivo) .

Imagine uma sociedade como a daqueles chimpanzés que protagonizam os canais de documentários, com um “macho-alfa” que tem o poder sobre as fêmeas e a geração das crias. Ele é o mais forte e tem o direito de punir os outros machos até que seja destituído, e assim sucessivamente. Se esse modelo social estiver na história primitiva da humanidade ou nas fantasias dos seres humanos primitivos, estava, com isso, a lei do mais forte e a sociedade da submissão e da anulação de uma possível cidadania. Somente a destituição da existência desse macho-alfa permitiria que cada macho pudesse ter uma fêmea para si, e vice-versa. Graças a isso se constituíram os casais e as famílias com identidade histórica e papéis de pai e mãe que se apoiam.

Para tal, a morte desse “pai primevo”, como disse Freud, teve ou que ser vivida ou ser simbolizada em ritual, ou as duas coisas. Vemos isso em todas as mitologias e religiões. Junto com a quebra dessa hierarquia da natureza e a instituição de uma hierarquia da cultura, todas as sociedades conhecidas passaram a ter uma lei comum e insuperável: todos os povos, em todos os lugares, compartilham a lei “não matarás”. E o que faz com que essa lei possa ser quebrada é exatamente o fato de se tratar de uma condição da cultura, não da natureza. Matar alguém é uma barbárie.

Junto com a cultura vieram as diversas leis humanas, primeiro reprimindo os instintos viver com integridade física, sobrevivência, alcance e preservação de posses, até a liberdade de ideias e expressões. Violar essas leis é um ato de barbárie, a expressão animalesca de um humano que não se humanizou e deixou seus instintos agirem.

Existe outra atitude animalesca presente no ser humano, outra barbárie: a horda. São os grupos organizados, sejam conluios de grandes empresas, torcidas organizadas, o crime organizado entre políticos e empresários ou entre traficantes e sequestradores, todos agem fora da lei e contra as condições fundamentais de integridade dos cidadãos e das instituições. Como precisam de uma ordem muito mais forte para sobreviverem sem se destruir, seus códigos éticos são mais fechados e suas leis morais muito mais drásticas. Funcionam com a pena de morte, o julgamento sumário e a tortura. Não admitem a discordância e desconfiam no limite da paranoia. Não há lugar para as diferenças, sejam de hábitos, comportamentos ou opiniões, a tal ponto que usam roupas semelhantes, constroem gírias próprias e inscrevem as mesmas tatuagens.

Esses grupos, dada sua homogeneidade, seu ímpeto e sua determinação em ignorar as leis e os limites dos cidadãos e das instituições se fortalecem e exercem um poder intimidador sobre um grupo bastante maior em quantidade de pessoas, mas menos organizado e violento. É o que ocorre com a maioria das megaempresas. A maior geração de empregos no nosso planeta se dá por meio do funcionamento das micros, pequenas e médias empresas, mas o maior poder político é o das megaempresas, que são menos em quantidade, mas têm um poder político tamanho que desconsideram os fundamentos de cidadania e as leis locais e internacionais. Suas operações são organizadas em demoníacos “paraísos” fiscais e sua liberdade em limites é tramada no silêncio soturno das influências ocultas.

Tal como ocorre em nossas favelas, e nos incontáveis guetos mundo afora, a maioria das pessoas não se identifica com essas hordas poderosas nem participa do cuidado para seu fortalecimento, mas, por não incorrer na barbárie, não se organiza com aquela impetuosidade para resistir e reagir. Por não constituir hordas não consegue vencer. Essa maioria desorganizada mantém e valoriza a sociedade com suas instituições, a ética e a moral porque não vai partir para o sacrifício desse pai primevo incorporado pelo comportamento das hordas. Assim como não há países nem povos suficientes para enfrentar as nações que geram e sustentam as sucessivas guerras.

Os recursos para garantir a impunidade variam até o modo do entretenimento. Por exemplo, em um filme da série do Batman, para a necessidade de se diminuir a credibilidade nos chineses, o grande vilão tinha essa nacionalidade; dada a necessidade de se validar a tortura de Abu Ghraib, o “herói” é posto em um subterrâneo e, “indignado”, perde a paciência e duramente exerce agressão física sobre seu arquirrival, Coringa, que estava detido. Assim a horda educa o povo. E os grandes criminosos de guerra da atualidade ficam impunes.

O exercício da liderança pode, consequentemente, se organizar pela forma da horda, ou dos bandos e seus bandidos, ou com os fundamentos de uma ética ampla que favoreça os direitos iguais fortalecidos. Aqueles grupos fechados são avessos à diferença e sustentam uma ética da exclusão, esses grupos abertos crescem e se fortalecem a partir do contato com o outro e promovem a ética da inclusão.

O problema se pulveriza e se revela mais próximo quando se observam empresas em que a organização do poder vai repetir a lógica da ética da exclusão. À medida que a hierarquia culmina, maior é a probabilidade de se criarem bandos de diretores e guetos de funcionários. Se a barbárie funciona pelo desrespeito à cultura, de modo semelhante a cultura institucional será aviltada e a opressão e a dor serão impostas à maioria que existe para manter a instituição e as normas.  Os processos de mobilidade horizontal seguirão a ética da exclusão e da incorporação dos iguais, o que favorece os oportunistas, bajuladores, medíocres, violentos e desonestos. Eventualmente haverá entre eles alguma pessoa que pense pela ética da inclusão, dos diferentes, que mais servirá para acalmar os ânimos e inspirar o exercício da liderança ética entre os subalternos, pois, repito, precisa-se deles para manter a instituição e suas normas aparentes.

Isso se relaciona com alguns estudos recentes.  No final de fevereiro se divulgou um estudo apontando que pessoas de classe alta tendem a ter comportamentos menos éticos, como infração de leis de trânsito, furto de objetos valiosos e mentiras em negociações (clique aqui). Também foi reportado que todas as grandes corporações seriam diagnosticadas como psicopatas de acordo com as seguintes características adotadas pelo FBI: indiferença e insensibilidade para com os sentimentos dos outros; incapacidade de manter relações duradouras; desrespeito e imprudência pela segurança dos outros; seduz, mente e engana repetidas vezes para lucrar; incapacidade de sentir culpa; falta de habilidade para se conformar às normas sociais respeitando comportamentos lícitos (clique aqui).

Portanto, o exercício da liderança ética terá poucas chances dentro de uma instituição cuja dinâmica do poder já é crônica, mas engana-se quem pensa que essa liderança se limita a esses ambientes. Se essas classes mais altas aprenderem a ética da inclusão, se um dos resultados da liderança ética for a educação dessa população, temos a única oportunidade de mudar na direção do bem comum. É certo que aquele grupo social se blindou tal qual as megaempresas, mas é provável que as ações sociais possam transpor essas barreiras pelo recurso mais elevado que a cultura humana criou: a experiência sublime. Não se trata exclusivamente da sensibilidade frente à arte, o que já é muito, mas os afetos refinados do amor e da compaixão, a disponibilidade para se observar as belezas naturais (como uma árvore florida na praça pública ou a surpresa de uma brisa), os jogos de equipe estruturados pela razão do ganha-ganha, o sentimento de gratidão.

Coisas assim, em seus devidos modos, devem estar entre os valores de todas as instituições e todas as práticas da liderança ética. São valores universais que culminam as culturas da história da humanidade e alinhavam o sentido saudável da cada existência.

O método para isso? A humanidade alcançou um recurso de incrível liberdade e penetração nos diferentes grupos: as redes sociais virtuais. Esta é a nossa arena.

 

Bernardo Monteiro de Castro

 

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