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Liderança ética 27 – A voz das ruas

Postado em 11 de setembro de 2013 | Por : | Categorias : Artigos | 2 Comentários

Liderança ética 27 – A voz das ruas: ética e responsabilidade social

Esperei para comentar sobre as manifestações populares intensificadas em julho. Recebi vários pedidos para publicar algo a respeito, mas não quis seguir o “efeito manada”. A ver os resultados do dia 7 de setembro me ajudou um pouco mais. Acompanhei as previsões dos meios de comunicação, que previam algo gigantesco, mas vi uma falha de um tamanho proporcional. E acompanhei os resultados de pesquisas e reações dos jovens frente às ações das polícias.

Acho que já temos dados objetivos para analisar. Não apenas sobre as transformações sociais, mas inclusive sobre questões afetivas e ideológicas, que podem servir ara quem se preocupa com as influências políticas e imagens institucionais. Peso que essas transformações não são necessariamente decorrentes das mudanças tecnológicas, muitas vezes trata-se de um aproveitamento dessas mudanças para se expressar algo que já existia.

Embora a tecnologia tenha apresentado importantes novidades neste século, a rápida adaptação das pessoas e instituições não tem sido acompanhada de uma compreensão crítica das mudanças estruturais, dinâmicas e culturais decorrentes dessas inovações. Nem mesmo do uso dessas inovações. É possível que a necessidade de se adaptar rapidamente aos novos recursos e informações minimize as análises críticas e reflexivas, pois elas poderiam atrasar a adesão ao novo. Com isso, nos tornamos menos críticos. Se a imediata adaptação aos novos recursos é uma resposta de integração ao mercado e à sociedade, por outro lado, a imersão em uma identidade grupal nos prejudica a individualidade e a coragem de pensar diferentemente.

O que se convencionou chamar de “a voz das ruas” foi uma grande surpresa devido a uma aparente certeza de que os meios virtuais se confluem em um sistema fechado, tal como já se divulgaram festas virtuais e reuniões de grupos constituídos por pessoas que jamais se encontraram fisicamente. Mas essa ilusão, para ser mantida, parece ter necessitado ignorar as diversas movimentações organizadas pelas redes sociais, as “flash mobs” e demais eventos, que variam desde manifestações usando “roupas de baixo” até conflitos entre torcidas de futebol.

O novo engano a respeito das movimentações de protesto é a interpretação de que se trata da identidade de uma geração. De fato, a grande maioria das pessoas acionadas pelas redes sociais e presentes nos protestos tinha menos de trinta anos, esse engajamento é historicamente regular. Entretanto havia representantes de todas as idades, e as pesquisas registraram apoio significativo das diversas faixas etárias.

Paralelamente, flui um engano mais antigo, o que interpretou os vinte milhões de votos à terceira colocada na eleição presidencial passada. A ideia de que o discurso ecológico e aparentemente neutro era apoiado por esse eleitorado não resiste frente à irrisória quantia de votos destinados aos correligionários “verdes” candidatos aos governos e ao Congresso.

Ademais, pode-se pensar que existem outros anseios, agora um pouco mais nítidos, na população em geral (não apenas nos jovens). Primeiro, a insatisfação com o descompromisso político para com suas responsabilidades imediatas com saúde, educação e mobilidade urbana. Isso não é exatamente o que se chama de infraestrutura socioeconômica, mas se poderia chamar de infraestrutura da ecologia urbana.

Segundo, a revolta contra uma insaciável corrupção, cuja divulgação por meio de sucessivos escândalos acaba sendo generalizada pelos cidadãos como algo presente em todos os políticos. E nos domínios do futebol e demais esporte, para não estender a outras áreas da iniciativa privada, por exemplo.

Por fim, percebe-se uma carência de identidade entre cidadãos e gestores públicos, principalmente os políticos, pois os anseios populares não encontram correspondência consistente na relação entre discurso e atitude desses políticos.

Ainda que esse terceiro ponto seja caracterizado por alguns sinais, o mais comum, e historicamente recorrente, é a fala generalizada de que o político só aparece em períodos de eleição, cheio de promessas que desaparecem com ele, imediatamente após o sufrágio. O que parece, contudo, ser ignorado, é que essa crítica recheada de desprezo e revolta acolhe duas grandes demandas, que recentemente insistem nos diversos discursos: ética e responsabilidade social.

São temas praticamente unânimes nos discursos religiosos, ideológicos, empresariais, estudantis, sindicais, etecetera, etecetera, e eteceteras. O que talvez seja o principal problema é que, mesmo que esses temas se apresentem nas falas de todos os representantes desses segmentos sociais, ainda assim seus principais atores não sabem sair dessas ideias para uma apresentação nítida de o que elas significam, qual o valor e importância delas, como elas se aplicam na vida cotidiana, quais são os projetos que as viabilizam, como se pode demonstrar propriedade para ser representativo dessas causas, como a sociedade é incluída como participante ativa e beneficiária segura de um processo balizado por esse binômio (ética e responsabilidade social).

A sustentabilidade é um conceito ainda controverso, muitos não creditam na possível equação que equilibre o consumo e a preservação dos recursos. O fato de o planeta ter chegado a um desequilíbrio, em prejuízo dos recursos, já no oitavo mês deste ano é significativo. Puxado pelos EUA, China e grandes corporações transnacionais, as demandas energéticas e financeiras não reconhecem limites, sob o argumento de que é preciso produzir riqueza. Não obstante o crescente acúmulo dessa tal riqueza e o distanciamento entre ricos e pobres.

Se deixarmos de lado a quantidade de falsidades e má fé, o descompasso entre atitudes e ideais de ética e responsabilidade social tem outros problemas. O maior deles é conceitual. Até hoje políticos e empresários se expressam como se ética fosse sinônimo de honestidade. Ignorância ou desinteresse em conhecer do que se trata. Para muitos desses, e outros, ética e responsabilidade social são sinônimos. E para mais tantos, e um punhado daqueles já arrolados, responsabilidade social se restringe à atenção voltada a comunidades carentes.

Sem um conceito aprimorado, não há metodologia de ação que seja eficiente. E eu me refiro a uma eficiência tanto de estratégias quanto de resultados. Desse modo, o discurso de empresários, políticos e líderes sociais precisa ter uma coerência interna entre os conceitos e as propostas assumidas, ao mesmo tempo em que esse discurso seja posto em prática no dia-a-dia e seja, também, realizável em, pelo menos, médio prazo.

A população, em geral, não aceita mais as incompatibilidades acima, seja pela incapacidade prática e conceitual, seja pela desonestidade. Manifestações mais violentas atingiram tanto alguns meios de comunicação quanto instituições de grande poder aquisitivo. Houve repórteres perseguidos e depredações. É possível que essas reações tenham o sentido de revolta contra quem divulga informações equivocadas que levam à construção de conceitos e ideias indevidos e contra os que extraem grandes ganhos da sociedade e não demonstram com precisão seus cuidados inerentes a suas responsabilidades. Os dois casos podem ser estendidos aos partidos políticos e seu proselitismo; sua prosa e seu elitismo.

Doravante, para quem se preocupar com uma coerência entre imagem, discurso e prática, novas atitudes precisam ser assumidas, um conhecimento mais profundo deve ser buscado e novos canais de interlocução precisam ser fortalecidos tanto no seu uso como em fundamentos éticos e de responsabilidade social. Caso contrário, é provável que muitas empresas e muitos políticos sejam engolidos pela mesma boca voraz que ruge nas ruas e nas redes sociais.

 

Bernardo Monteiro de Castro

 

(Veja mais sobre liderança clicando em: post1, post2, post 3, post4, post5, post 6, post 7, post 8, post 9, post 10, post 11, post 12, post13, post14, post15, post16, post17, post18, post19, post20, post21, post22, post23, post24, post25, post26, curso1, curso2, palestra1 e palestra2, agenda.)

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Comentário

  • André Sathler

    11 de setembro de 2013 às 16:07

    Prezado Bernardo, parabéns, excelente texto. Aqui na Câmara temos um periódico científico e gostaria de desafiá-lo a expandir esse texto, dando-lhe um caráter mais acadêmico, e explorando mais a questão da representação e dos políticos, e enviar para nosso periódico. Seria uma contribuição brilhante!

    • crescentedh

      20 de setembro de 2013 às 14:09

      Meu caro André,
      Agradeço a atenção por visitar meu blog e, ainda mais, pelo convite para a publicação. Vou entrar em contato por meio de seu e-mail.
      Grande abraço,
      Bernardo

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